Seguindo a cartilha dos responsáveis amantes da música, devo cumprir minha dura tarefa de lutar por uma maioria desprezada: os compositores. Renato Teixeira, em uma entrevista comentou: É muito gratificante ouvir sua música sendo assobiada e cantarolada pelas ruas. Quando o compositor é cantor as chances de reconhecimento aumentam, e felizmente, alguns merecidamente o são, mas a realidade não é essa. Por isso, complementaria o comentário acima: perguntar o autor da música e ter como resposta o intérprete é preocupante.
A música Nervos de Aço de Lupicínio Rodrigues, já foi gravada e interpretada por diversos artistas, que puxavam a melodia para um lado e cantavam de formas diferentes. Paulinho da Viola, sem o cuidado de ouvir o autor, fez o mesmo até um show em Porto Alegre. Naquele dia, um parceiro e amigo de Lupicínio lhe disse: Essa música é um pouquinho diferente do que você canta. (…) Ele sempre falava um pouco disso: muitas músicas dele (…) um gravava de um jeito, outro gravava de outro.
Independente do profissionalismo, interferir na música é comum entre os cantores, sejam eles medíocres ou geniais. Ney Matogrosso e suas interpretações performáticas e Caetano Veloso e sua melodia desacelerada, são ótimos exemplos de uma bela mudança. A intervenção em si, não é de todo mal. Mas, para evitar o lado descompromissado da relação catártica, que se entranha no processo criativo do intérprete aos sentimentos do ouvinte, é preciso considerar os desejos do compositor. João Bosco, depois da interpretação feita por Elis Regina de O bêbado e a equilibrista, não via necessidade de cantar sua própria música. As interpretações podem criar desconfortos e decepções ou alegrias e satisfações.
Compositor e cantor são duas faces da mesma moeda. As interpretações podem matar, dar vida ou ressuscitar as canções, assim como a escolha do repertório faz o mesmo com seus intérpretes. Na presença das relações sinérgicas como essa, a hierarquização está fadada ao erro, já que a admiração exacerbada pelo cantor provoca o desprezo profundo pelo compositor. Mas, esse é o mecanismo de controle social à música. Preocupada com seu espetáculo midiatizado, mesmo que efêmero, a sociedade atrela o reconhecimento profissional ao seu nível de visibilidade e a fama – número de inserções em programas televisivos – a representação máxima de qualidade musical.
O mercado fonográfico padronizada as mesmices, escolhendo o ritmo da vez e banaliza a palavra ídolo, cuspindo clones multiplicados como se fossem artistas. Diante da cultura enlatada, que transforma Baba baby e Créu em hits, melodia e poesia se tornam insignificantes e os compositores perdem sua função. Longe de ser pessimista ou catastrófica, não desconsidero a existência e resistência de produções independentes de altíssima qualidade. Assim como critico, poderia indicar e exaltar cantores e compositores dentro desse patamar. Mas garanto, eles não aparecem diariamente na mídia (felizmente!) e não construíram sua carreira através dela.
Voltemos à história de Paulinho da Viola. Quando o parceiro de Lupicínio Rodrigues lhe mostrou a versão original de Nervos de Aço, ele levou um susto, mas passou a cantar a música como ele falou, em respeito ao compositor que valorizava sua integridade. Tive a oportunidade, através de um vídeo, de ver o Lupicínio cantando, procurei decorar bem e passei a cantar assim.
Propagandear os compositores é papel de todos, mas o desafio principal está em nós, os ouvintes. De um lado, os artistas legitimamente profissionais, principais fomentadores da minha esperança, divulgam os compositores em respeito à música, criando uma relação de sintonia e cumplicidade invejável. Aliás, no quesito memória e preservação histórica, os sambistas são líderes absolutos. E do outro, o mercado fonográfico e suas gravadoras abastecem a sociedade de consumo, que se preocupa apenas com os investimentos rentáveis geradores de lucro. A sua benevolência é apenas ilusão, deles podemos esperar problemas e imposições, mas não soluções e ajudas. Mas para salvaguardar os grandes mestres da música, me meto até em briga de cachorro grande.
O reconhecimento por gerações ou o completo esquecimento de canções e intérpretes depende da memória do ouvinte. Por isso, melhor do que se abdicar da responsabilidade é exercer justamente o seu poder. Lembrar e conhecer os compositores é valorizar a música em toda sua completude. Preservá-los é legitimar o que há de melhor na nossa cultura. Do anonimato a fama ou da mediocridade ao sucesso, quem bate o martelo somos nós.
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